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Jogando enquanto o mundo pega fogo

Thais Weiller

13/05/2020 14h30

Tempos difíceis esses pelos quais passamos, presos em nossos lares observando atônitos o mundo lá fora, como peixes em um aquário. Não devemos sair (podemos, mas não deveríamos), e acabamos nos resignando a ficar em casa mesmo. Vemos o tempo passar lentamente lá fora enquanto assistimos aqui dentro, sem ação.

Jogos são sobre ação e sobre permitir que o jogador sinta-se no controle de sua trajetória. A sensação que vem desta capacidade de a) escolher entre opções e b) pôr em prática esta escolha em sua própria vida é chamada na sociologia e no estudo de jogos de agência. Como game designers, nosso papel é permitir o tipo certo de agência para o jogador dentro do jogo para que ele sinta como nós queremos que ele se sinta, de oprimido a poderoso. 

Como game designers, nosso papel é permitir o tipo certo de agência para o jogador dentro do jogo para que ele sinta como nós queremos que ele se sinta, de oprimido a poderoso. 

Em tempos de pandemia, nós nos encontramos sem agência para chamar de nossa, e essa perda de poder nos causa angústia. Com frequência, tentamos tapar essa angústia com ações que nos fazem nos sentirmos confortáveis, o que é chamado de mecanismo de enfrentamento. Estamos aprendendo muitas palavras complicadas hoje mas o mecanismo de enfrentamento é um nome longo para algo com o qual já estamos bem familiarizados: assistir TV bem mais do que devíamos, comendo mais doces do que o recomendado, jogando jogos de forma excessiva e até vícios químicos, como forma de não pensar ou não encarar os outros problemas que nos cercam. 

Em tempos como estes em que nossa única opção é esperar, jogos tornam-se uma atraente compensação para nossa falta de agência no mundo real. No mundo digital ainda temos todo o poder conforme definido pelos desenvolvedores, ainda podemos decorar nossa ilha, atirar nos vilões, salvar o povoado. A agência virtual se torna especialmente viciante ainda mais quando combinada ao potencial social que muitos jogos permitem. Não podemos mais ir às aulas e ver nossos colegas ou ir no bar e rever amigos, mas ainda visitar suas vilas em Animal Crossing ou construir nossas vilas juntos em Minecraft.

Em épocas anteriores, eu sugeriria sempre estar alerta aos seus mecanismos de enfrentamento e enfrentá-los de frente. Hoje, eu defendo que escolhamos os mecanismos que são menos prejudiciais à nossa saúde e tragam o máximos de bem estar possível

Psicólogos recomendam prestar atenção nesses mecanismos, já que eles indicam a tentativa de fuga de um problema ou ameaça, tentar reconhecer a causa desta resposta e agir a eliminando. No nosso caso, entretanto, a causa está clara a todos, a resposta à ameaça também. Temos que ficar em casa, saindo o mínimo possível, enquanto o mundo sobrevive à uma crise sem precedentes. Para trabalhadores não essenciais não há ação possível, apenas paciência enquanto observamos os obrigados a agir de dentro do nosso aquário, isolados. 

Em épocas anteriores, eu sugeriria sempre estar alerta aos seus mecanismos de enfrentamento e enfrentá-los de frente. Hoje, eu defendo que escolhamos os mecanismos que são menos prejudiciais à nossa saúde e tragam o máximos de bem estar possível. Joguemos o quanto quisermos para sobrevivermos até o momento em que poderemos novamente enfrentar de frente nossos medos e problemas.

Sobre a autora

Thais Weiller é mestre pela ECA-USP pesquisando game design, com uma dissertação que virou um livro e um blog. Ela trabalhou em games como “Oniken”, “Odallus”, “Finding Monsters”, “Rainy Day” entre outros, e também fundou, junto com Danilo Dias, a desenvolvedora JoyMasher. Atualmente, Thais dá aulas de design de jogos na PUC do Paraná.

Sobre o Blog

Quais os mitos e fantasias que influenciam nosso comportamento e afetam nossa paixão pelos games? Neste espaço, Thais vai trazer a perspectiva dos pesquisadores e desenvolvedores de jogos para nos ajudar a entender os games de uma maneira diferente.