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Thais Weiller

Começando o jogo: Faculdades são necessárias para fazer games?

Thais Weiller

04/08/2020 15h30

Todos nós aqui obviamente jogamos e consideramos jogos uma importante parte da nossa vida. A cada ano que passa, mais pessoas concordam com isso e conforme o número de jogadores aumenta, jogos ganham um lugar cada vez mais privilegiado na nossa cultura. Cada vez mais, jogos são vistos como algo incrível e quem é sortudo o suficiente para trabalhar com isso como um vencedor. 

Sabemos, entretanto, que trabalhar com jogos não é só alegrias e sucesso, e que jogos não são um trabalho individual de uma mente brilhante, mas sim o trabalho compartilhado de várias, várias pessoas. Mesmo não sendo a carreira de anjos e deuses – com dinheiro e reconhecimento grátis – que muita gente ainda acha, trabalhar com games não precisa ser um sonho distante: é uma opção viável para a maioria das pessoas, desde que elas saibam bem o que esperar da área.

Com frequência, recebo emails, twits e mensagens de pessoas perguntando como elas podem participar da criação de games. Como detentora de uma trajetória não muito ortodoxa dentro da indústria de jogos, eu não posso recomendar o meu caminho em particular, mas também aconselho nenhum caminho único para todo mundo. Não é um mapa do tesouro ou um plano de carreira claro que qualquer pessoa que almeje trabalhar em qualquer área envolvendo jogos podem seguir. Cada indivíduo, dependendo de suas habilidades, seus desejos e em especial em qual momento que está de sua vida, pode fazer coisas mais ou menos importantes para seu crescimento pessoal e na área. E, aliás, nenhuma dessas ações ou conjunto delas é uma garantia de sucesso, independentemente do que cada um define como sucesso. 

Existem vários primeiros passos possíveis considerando as particularidades da sua vida, de cursos de extensão a graduação e jams. Hoje vamos falar qual a relação de faculdades, em especial cursos específicos de jogos digitais, e fazer games. Antes de continuarmos, preciso dizer que sou professora do curso de Tecnólogo em Jogos Digitais da PUCPR o que com certeza informa minha opinião sobre o assunto, mas talvez não da forma que você espera.

Primeiro de tudo vamos conversar sobre o que esperar do curso de jogos digitais. Tendo em vista que todo primeiro semestre alguns alunos desistem do curso por conta disso vou dizer já no começo: a faculdade de jogos digitais não é uma faculdade que você vai só pra jogar jogos. Você até joga jogos, mas o foco mesmo é fazer jogos. Se você quer apenas jogar, não entre na faculdade e não gaste o dinheiro dos seus pais ou seu e o seu precioso tempo. Agora voltando as informações realmente relevantes, ao meu ver, é um curso de introdução sobre o que é um jogo, como fazê-lo, as áreas e passos do processo, como funciona a indústria de jogos, e em especial um espaço seguro para conhecer outras pessoas que também querem fazer jogos. Nunca subestime a importância de conhecer e poder trabalhar junto em um ambiente cuja sua maior preocupação é o lanche da cantina e a nota do trabalho e não se você vai ter ou não salário no fim do mês. Por isso também, a faculdade é um ótimo espaço para testar e treinar sua capacidade de trabalhar com outras pessoas, entender que idéias não são boas ou ruins mas sim bem ou mal empregadas a serviço do jogo e a lidar com expectativas.

Isso pode soar como algo do jardim de infância, né, aprender em trabalhar em grupo, mas não é. É uma habilidade essencial para qualquer desenvolvedor de jogos, e uma habilidade que ainda sim falta a muito deles. Seu jogo só vai ser tão bom quanto a equipe que o fez, e a equipe só é capaz de fazer seu melhor quando todos os membros sentem que podem confiar uns nos outros e que seu trabalho está sendo valorizado e bem utilizados pelos demais. Se você acha que nunca trabalhou em um grupo em que você se sentiu assim, talvez a faculdade de jogos seja para você.

Quanto ao conteúdo, às matérias que você vai encontrar, é verdade que a maioria você pode sim encontrar em outros lugares. Game design, arte, programação, todos esses pontos podem ser aprendidos até com mais profundidade do que em sala de aula até no youtube. Isso não é uma falha da faculdade de jogos, mesmo por que isso é verdade para todas os cursos de faculdades do mundo, a diferença é que a faculdade oferece uma pessoa treinada, o professor, que vai te oferecer uma versão curada desse conteúdo na ordem em que considera mais propícia para seu aprendizado. O professor, aliás, é uma pessoa com quem você pode tirar dúvidas e pode te sugerir caminhos diferentes de aprendizado, inclusive para conteúdos mais avançados do que ele apresenta em sala de aula caso esse seja seu interesse. O professor é o moderador do seu conhecimento, então, sempre que possível, tente conhecer seus futuros professores antes de decidir se vai cursar ou não a faculdade de jogos. Conversar com eles e entender como eles vêem suas matérias vai te ajudar muito a entender se esse curso é para você, e eu te garanto que professores adoram essa preocupação vinda de alunos e possíveis alunos; mostra que você se importa tanto com a sua educação quanto eles.

Mas antes de mandar emails para todo corpo discente da faculdade de sua cidade e se matricular, você precisa também considerar onde você está na sua vida. Você já é formado em uma faculdade ou está quase graduando e conhece um grupo de pessoas que trabalham com jogos ou que estariam dispostos a fazer um com você nas horas vagas? Se a resposta é sim para ambas, o curso de jogos digitais não é, ao meu ver, a escolha mais direta para você. Talvez uma especialização, um estágio, cursos online e jams sejam uma escolha mais econômica (em relação tanto a tempo quanto dinheiro) de você conseguir o conhecimento que precisa e conhecer as pessoas que podem te ajudar a chegar lá. Vou falar mais sobre o que fazer caso você respondeu sim para ambas ou uma dessas perguntas no futuro para não fugir do tema de faculdades de jogos.

Outro ponto a se considerar é se você já sabe o que quer fazer em jogos ou não. Se você já sabe com toda certeza que quer ser programador, talvez seja mais interessante procurar uma graduação na área de programação em uma faculdade que também tem o curso de jogos, de forma que você pode fazer algumas matérias no curso de jogos. Da mesma forma, se você sabe que quer trabalhar com arte ou música ou áudio, talvez faculdades nessas áreas sejam mais interessantes. A única exceção é se você quer trabalhar com game design, pois nesse caso o curso de jogos é o mais próximo da sua especialização buscada. Neste caso, a parte de falar com os professores é especialmente importante para você ter uma idéia o quão aprofundado é o ensino de game design no curso que você está se inscrevendo.

Agora que você tem uma boa idéia sobre se você deve ou não entrar em uma faculdade de jogos digitais, vamos falar o que você não pode esperar dela e para mim a principal coisa é: você não deve esperar que vai sair dela sendo um especialista qualquer coisa. Como eu disse no começo do texto, a faculdade é uma excelente introdução à todas as áreas do desenvolvimento e mesmo faculdades que oferecem uma escolha em foco dentro do curso (na PUCPR, por exemplo, temos o foco em programação e outro em artes), você não vai sair dela sabendo tudo que precisa saber para trabalhar na área. Você ainda vai ter que aprender muito, teoricamente e na prática. Isso, mais uma vez, não é uma falha da faculdade de jogos digitais em si mas uma falha de faculdades em geral. O tempo é muito curto, a academia é muito restritiva, certos conhecimentos só vem com o tempo. O sucesso aqui é que você saia da faculdade entendendo melhor a área e sabendo qual parte dela você quer trabalhar com e aprender mais sobre.

A graduação em jogos digitais é uma forma concisa e condensada de entender a indústria, conhecer pessoas que fazem parte dela ou que querem entrar junto com você, e que pode ser exatamente o que você precisa ou não dependendo do momento da sua vida. Ela não é um ticket garantido para a indústria ou para os milhões de dólares em jogos e, em especial, não é o fim da sua jornada de aprendizado mas sim o começo de uma longa, longa jornada. 

Semana que vem vamos falar de outras formas de entrar na área de games, fiquem ligadinhos.

Sobre a autora

Thais Weiller é mestre pela ECA-USP pesquisando game design, com uma dissertação que virou um livro e um blog. Ela trabalhou em games como “Oniken”, “Odallus”, “Finding Monsters”, “Rainy Day” entre outros, e também fundou, junto com Danilo Dias, a desenvolvedora JoyMasher. Atualmente, Thais dá aulas de design de jogos na PUC do Paraná.

Sobre o Blog

Quais os mitos e fantasias que influenciam nosso comportamento e afetam nossa paixão pelos games? Neste espaço, Thais vai trazer a perspectiva dos pesquisadores e desenvolvedores de jogos para nos ajudar a entender os games de uma maneira diferente.